Tivemos oportunidade de falar muitas vezes sobre como seria o primeiro dia depois da partida dela. Não eram conversas leves, nem feitas por acaso. Eram diretas, quase práticas. Eu tentava antecipar o impacto; ela respondia sempre da mesma forma:
“A vida continua.”
Na altura, a frase soava simples. Hoje, percebo que era tudo menos isso.
A vida continuou, de facto. Não esperou por mim, não abriu espaço, não concedeu pausa. Seguiu num ritmo exigente, sem tréguas, e obrigou-me a avançar enquanto algo essencial se tinha perdido. Não tive grande oportunidade de experienciar o luto como se imagina que ele devia ser vivido. A dor não encontrou silêncio nem tempo; teve de ser transportada no meio do movimento.
A perda da minha mãe não foi apenas a perda de uma pessoa. Foi a perda de um lugar onde eu existia sem esforço. Um espaço de reconhecimento automático, mesmo quando havia discordância, mesmo quando havia tensão. A ausência dela não criou só saudade; criou um vazio estrutural, difícil de explicar e impossível de ignorar.
Durante algum tempo, o choque misturou-se com o quotidiano. Havia momentos em que o corpo ainda esperava o telefone tocar. Pequenos automatismos que revelavam que uma parte de mim não tinha acompanhado a realidade. As noites tornaram-se mais fragmentadas, os dias mais funcionais. Não havia colapso visível, mas havia desgaste.
A tristeza nunca foi limpa nem organizada. Surgia em fragmentos: perceber que já não posso ligar, que certas perguntas ficam por responder, que há histórias que já não terão destino. A dor não estava apenas no que perdi, mas no que deixou de poder acontecer.
Houve culpa. Mesmo sem lógica. Culpa por telefonemas adiados, por impaciência, por não ter sido sempre o filho que agora, retrospectivamente, parece óbvio que devia ter sido. Depois da morte, constrói-se facilmente uma versão idealizada de quem fomos e de quem devíamos ter sido. A culpa nasce muitas vezes dessa fantasia, não da realidade.
Houve também raiva. Pouco falada, pouco aceite. Raiva pela injustiça, pela interrupção, pelo mundo continuar indiferente enquanto algo interno se desorganizava. Raiva por ter de aprender a viver de um modo para o qual nunca me candidatei. Não foi elegante nem racional, mas foi honesta.
Com a morte dela, surgiu um medo simples e cru: o de estar mais exposto no mundo. Como se uma camada de proteção tivesse sido retirada. As decisões passaram a pesar de outra forma. A ideia de “regresso” deixou de existir, mesmo que raramente fosse usada.
Segui em frente não por heroísmo, mas por necessidade. Parar teria sido outra forma de perder. Aprendi a funcionar sem me dar autorização para parar, a resistir antes de poder elaborar. Isso teve custos. Partes do luto ficaram por viver no tempo certo; outras transformaram-se em tensão acumulada, cansaço persistente, vigilância constante. Não foi escolha consciente. Foi adaptação.
Ainda hoje, há momentos em que me ocorre ligar-lhe. O impulso vem antes do pensamento. São segundos curtos, mas suficientes para reinstalar a ausência com força total. A mente sabe; o corpo insiste.
Olhar para os meus filhos e saber que estão a crescer sem que ela assista a isso dói-me de forma particular. Não apenas pela ausência enquanto avó, mas pelo que não é testemunhado: traços, gestos, continuidades que ela reconheceria de imediato. A ideia de que ela possa desvanecer-se na memória deles magoa-me ainda mais. A memória é uma forma de presença, e a possibilidade de essa presença se diluir confronta-me com um tipo diferente de perda.
Resta-me nomeá-la. Falar dela. Inscrevê-la nas histórias que conto, nos valores que explico, nas escolhas que modelo. Não para a eternizar artificialmente, mas para que a sua marca não desapareça em silêncio. Talvez essa seja agora parte da minha responsabilidade: ser ponte entre o que eles não viveram e aquilo que, ainda assim, pode continuar a existir neles.
Com o tempo, fiz uma escolha consciente. Decidi seguir caminhando. Transportei a dor para o meu dia-a-dia e transformei-a em força. Não porque ela se tenha tornado leve, mas porque precisava de direção. Carrego em mim o exemplo de uma força de vontade e de uma resiliência construídas em contextos difíceis, testadas ao limite. Esse legado não elimina a dor, mas impede-a de me paralisar.
Hoje, percebo melhor aquelas palavras ditas com aparente simplicidade. “A vida continua.”
Não como negação da dor. Não como ordem para ser forte. Mas como constatação exigente: a vida avança, quer estejamos preparados ou não.
A vida continua — e eu continuo com ela — levando a perda integrada no caminho. Não à frente de tudo, não escondida, mas presente. Continuar não significa estar inteiro. Significa, apenas, não deixar de avançar.